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O PREGO

    Cidadão chinês com prego introduzido no crânio (Imitação do conto ocupando espaço no mundo real – a foto não corresponde ao caso).

    Resultado de imagem para prego na cabeça

    Conto: Gritou o desconhecido, logo ao abrir as portas de vai-vem, que separam a seção de homens, do corredor, daquele movimentado pronto-socorro. A reação de espanto é geral. Um silêncio, nunca visto, toma conta do ambiente, substituindo o burburinho habitual, àquela hora da manhã. Gente que passava, naquele momento, pelas imediações, pára perplexo. Médicos e enfermeiras, tomados de surpresa, interrompem os afazeres, e olham na direção que vem a voz. E o que vêm, deixa-os, de olhos esbugalhados. Os doentes nas filas, para tomar injeção, e os menos graves, deitados nas camas, por alguns instantes, esquecem seus males, para fixar a atenção naquele estranho. Somente continuando num alheamento total, os em coma. A expectativa é geral, ninguém esperava algo assim, que viesse perturbar a rotina de serviço. 

    Apoiado nas portas entreabertas, permanece o recém-chegado, autor do inesperado suspense.

    Um homem jovem, aparentando aproximadamente trinta anos, tendo os cabelos revoltos, em desalinho. Trajava modestamente, uma camisa amarela, um tanto desbotada com uma orla de sujeira na gola. A calça de listras finas: azuis, brancas e cinzas, verticais, poída nos joelhos, um pouco maior para o seu tamanho, demonstra ter sido bem usada. Contrastando com a vestimenta, os sapatos pretos, inexplicavelmente limpos, bem conservados, brilhando intensamente, dão a impressão de que foram engraxados recentemente. A fisionomia, deixando transparecer um aspecto enigmático, absurdamente neutro, em dissonância com a realidade. Seria um sapateiro? …ou um engraxate? Talvez, um desses excêntricos, que povoam o mundo conturbado da atualidade. Seria, provavelmente, esse o pensamento especulativo geral. Era, naturalmente, uma figura esquisita, somente encontrada nas obras literárias, dos escritores de imaginação fértil.

    Do alto da sua cabeça, observa-se uma faixa vertical, de bordos irregulares e imprecisos, parcialmente circundada de respingos mais intensos no início, de vermelho vivo. Escorre pelo lado esquerdo da face, pescoço e gola, até o bolso, na altura do peito. Não é preciso perder tempo em especulações para concluir que se trata de sangue.

    Ante a falta de ação e a perplexidade generalizada, o recém-chegado repete: “Enfiei um prego na cabeça”.

    É como se uma descarga elétrica tivesse atingido a todos. Médicos e enfermeiras precipitam-se, atabalhoadamente, na direção da porta, onde se encontra o interessante intruso. Pessoas que se achavam nas imediações, curiosas, aproximam-se. Os doentes da fila e os das camas, menos graves, principiam a comentar, encontrando, assim, uma motivação para um bate-papo que ajuda a matar o tempo. Há um rebuliço fora do normal. A rotina reinante é quebrada, pela chegada inesperada de um inusitado caso. “Não são todos os dias que alguém enterra um prego na cabeça, e ainda mais, chega a um hospital andando”, comenta um funcionário da administração.

    Uma inspeção superficial atesta a veracidade do fato: o homem tem um prego enterrado na cabeça.

    Levado para o interior da sala, uma maca é desocupada, já que o seu dono apresenta condições que o permitam ficar sentado no banquinho.

    Um exame mais minucioso acusa que o prego foi totalmente introduzido, somente ficando a cabeça de fora, bem no cocuruto. Um prego de grandes proporções, parecendo ser do tipo dos usados em construção, na feitura de andaimes. É a conclusão que chegam os médicos.

    “Como é possível isto?” pergunta com perplexidade um dos médicos examinadores. “Nunca vi coisa igual em vinte anos de vida profissional”, comenta outro. “E ainda está consciente” complementa um terceiro. “Passem um soro na veia; coloquem uma sonda na bexiga; mandem preparar a sala para uma cirurgia de emergência; vamos levá-lo para o Raios–X, dita uma série de ordens o mais velho, parecendo ser o chefe da equipe. O neurocirurgião é solicitado a comparecer ao pronto-socorro.

    Instalado na maca, observa todo o alvoroço que se desenrola ao seu redor, da mesma maneira que um espectador aboletado na sua estofada cadeira numerada assiste a mais um ato da peça teatral.

    Os guardas de segurança, com uma educação, que surpreende a todos, solicitam, aos que não fazem parte do corpo de atendimento hospitalar, que se afastem, deixando livre a passagem.

    No seu rosto, permanece a mesma expressão indecifrável, sem traduzir qualquer emoção, o que intriga a todos que tomaram conhecimento do seu caso. Não existe uma explicação adequada, justificável, pelo menos no momento, apenas restando aguardar sua manifestação em esclarecer tal situação. Mas, permanece alheio, como se nada tivesse ocorrido com ele.

    “Que maneira curiosa de tentar o suicídio” comentam as enfermeiras.

    A radiografia constata que o prego de dez centímetros de comprimento está localizado entre os hemisférios cerebrais, penetrado bem fundo, nas estruturas nervosas. Sua situação central, permite o paciente ainda estar vivo e lúcido, conclui a junta médica em conferência.

    Enquanto os médicos, reunidos, discutem o que deve ser feito, o quase suicida recebe os preparativos que antecedem a operação. Suas vestes são substituídas por um roupão branco, com as iniciais do hospital. Seus sapatos são retirados e guardados dentro de um saco plástico, que é colocado numa gaveta do armário. O couro cabeludo é cuidadosamente raspado, para que não fique nenhum fio, que poderia contaminar a ferida operatória. A medicação pré-anestésica é aplicada.

    “Tudo pronto, nada falta”, suspira o neurocirurgião preocupado, responsável pela delicada intervenção, ao ouvir pelo auto-falante interno a comunicação de que a sala de cirurgia estava preparada.

    O paciente é posto no elevador que o leva diretamente ao centro cirúrgico. Logo em seguida, sobem os médicos que participarão da operação, acompanhados de uma comitiva de médicos curiosos.

    A instrumentadora dá os últimos retoques no instrumental cirúrgico, enquanto a enfermeira circulante providencia os fios de categute e de algodão, que serão utilizados na sutura.

    Durante a escovação e a lavagem das mãos, os cirurgiões indagam a razão para tal gesto tresloucado, não chegando à conclusão alguma.

    O anestesista entuba o paciente, a pressão medida dá normal, uma sonda é colocada no estômago e outra na bexiga. Dessa maneira, os preparativos finais que antecedem a cirurgia são ultimados.

    Logo após a descontaminação da região cirúrgica, o afiado bisturi, manejado com perícia pelas mãos hábeis do experimentado operador, incisa o couro cabeludo até encontrar o plano duro dos ossos. A hemorragia maciça, consequente a incisão, é controlada. Com uma compressa seca, o primeiro auxiliar, enxuga o campo operatório, permitindo uma ampla visibilidade. “Tudo bem” responde o anestesista ao olhar inquisitivo do cirurgião. “Pode continuar” complementa, tranquilizando. A intervenção prossegue sem qualquer transtorno, ouvindo-se somente o triturar dos ossos pelos fórceps cirúrgicos. A assistência acompanha com grande emoção o desenrolar, maravilhada com a suavidade com que os instrumentos são manuseados.

    Com uma manobra magistral, o prego é retirado, e uma exclamação de alívio inunda o ambiente.

    Repentinamente, o grito apavorante do anestesista, de gelar o sangue nas veias, ecoa.  E um corre-corre frenético, é estabelecido.

    Momentos depois, a uma euforia fugaz, o paciente está morto.
     

    Observação: Este conto foi escrito em 1976, já médico, e, é resultado de história que ouvi quando era acadêmico de medicina bolsista do Pronto-Socorro, anos 60, no Hospital Estadual Getúlio Vargas do Rio de Janeiro. 

    Autor: Dr. Edvaldo Tavares   DEZ 24, 2010  

     
    Sistema Raiz da Vida Além da Inteligência NutricionalElizabethe Milwaard – Profª de Consciência Nutricional e Mentóloga; Idealizadora do Sistema Raiz da VidaDr. Edvaldo Tavares – Médico, CRMDF 7265 e CRMSE 4897; Jornalista, DRT 2175; Diretor Executivo e Diretor Técnico do Sistema Raiz da Vida

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